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quarta-feira, 22 de julho de 2020

FIM E RECOMEÇO: Após 10 anos na fila, mãe é transplantada com rim de filho morto



Um fim trágico acabou se transformando em um recomeço esperançoso para uma família de São Francisco de Itabapoana, no Norte Fluminense.
Maria Isabel dos Santos Monteiro Oliveira, de 65 anos, era paciente renal grave e aguardava por um transplante há 10 anos. No fim da última semana, ela passou pela tão esperada cirurgia, mas o que Maria Isabel não poderia imaginar é que o doador seria seu próprio filho, Magno Monteiro Oliveira, de 34 anos, que teve morte encefálica decretada após um acidente de moto.
“Nós ficamos muito abalados com tudo o que estava acontecendo e quando nos perguntaram sobre a doação, a primeira coisa que pensamos era que o rim poderia ser doado para a nossa mãe. Mas os médicos nos explicaram que não era possível escolher, que o procedimento é sigiloso e segue critérios. Ficamos sem chão”, conta uma das irmãs de Magno, Isabela Monteiro.
Frustrada com a notícia de que a mãe deveria enfrentar a fila e poderia não receber o órgão, Isabela conta que chegou a cogitar a possibilidade de não autorizar a doação, mas foi surpreendida por Maria Isabel.
“Depois de contar para a minha mãe que Magno tinha morrido, falei para ela sobre a decisão que precisávamos tomar e que nós não poderíamos doar diretamente para ela. Confesso que fiquei muito egoísta na hora. Mas minha mãe disse algo que ainda me emociona muito”.
“A nossa tristeza de hoje vai se tornar a alegria de outras pessoas e, um dia, a tristeza de outra família será a nossa alegria’. A sabedoria da minha mãe fez a gente tomar a decisão certa”, ouviu da mãe.
A família de Magno autorizou a doação de rins, fígado e coração, órgãos que salvaram a vida de quatro pessoas. Entre elas, a da própria mãe. Informação que só chegou à Maria Isabel e sua família momentos antes da cirurgia.
“Minha mãe recebeu uma ligação do hospital às 23h30 de quinta-feira (16) dizendo que ela foi selecionada para o transplante e que precisaria passar pela triagem. Outras cinco pessoas também foram chamadas e fizeram a triagem, mas minha mãe foi a escolhida porque o nível de compatibilidade era muito alto. Foi aí que nosso coração começou a sentir que o rim era do meu irmão”, conta Isabela.
A constatação, segundo a filha, veio quando Maria Isabel recebeu algumas informações básicas sobre o doador.
“A equipe médica informou para a minha mãe que ela receberia um rim de um doador de morte encefálica, de Campos dos Goytacazes, de 34 anos e 6 meses. Só houve aquela cirurgia de captação na sexta-feira e as informações batiam exatamente com o caso do meu irmão. Era ele”.
A cirurgia de captação foi feita no Hospital Ferreira Machado (HFM) e o transplante no Hospital São Francisco de Assis, no Rio de Janeiro, na última sexta-feira (17). Procedimento que durou três horas.
Maria Isabel fazia hemodiálise há 10 anos e teve 100% de compatibilidade com o órgão do filho.
“Essa história é uma história muito excepcional e rara e, porque não dizer também, emocionante”, afirmou o psicólogo do programa municipal de transplantes NF – Transplantes, Luiz Cosmelli.
O acidente
Magno saiu de moto na noite do domingo (12), e, na madrugada de segunda-feira (13), a família ficou sabendo do acidente.
Ele foi socorrido para o Hospital Manoel Carola, em Ponto de Cacimbas e transferido logo depois para o Hospital Ferreira Machado (HFM), em Campos, mas não resistiu aos ferimentos e teve a morte encefálica decreta na quarta-feira (15).
De acordo com familiares, Magno já havia se disponibilizado há alguns anos para ser o doador do rim que sua mãe tanto precisava, mas Maria Isabel não aceitou por considerar o filho muito jovem para se submeter ao procedimento.
Já transplantada, a mãe de Magno deve ser transferida para a enfermaria do Hospital São Francisco de Assis ainda nesta quarta-feira (22).
“A cirurgia dela foi um sucesso, independente da dor. É um momento muito difícil, um momento de perda. Realmente é algo que não tem como voltar atrás. Mas dessa experiência Deus fez um plano muito lindo nas nossas vidas e realmente a gente não explica os planos de Deus”, afirma Isabela Monteiro.
Doação de órgãos
Atuando em Campos e municípios circunvizinhos desde 1992, o programa municipal de transplantes – NF Transplantes, funciona dentro do Hospital Ferreira Machado. De acordo com a unidade, só este ano, 7 fígados, 14 rins e 1 coração já foram transplantados com a intervenção da unidade.
“Parece que o olhar das pessoas está mais sensível em relação ao outro. Eu acho que a gente tá tendo que reaprender que não vivemos sós, que alguém do nosso lado sempre pode estar precisando de um gesto nosso, um gesto de generosidade, um gesto de amor”, afirma o psicólogo do programa, Luiz Cosmelli.
O NF Transplantes é ligado ao Programa Estadual de Transplantes (PET) e ao Sistema Nacional de Transplantes do Ministério da Saúde.
A central de transplantes – ligada ao PET – recebe notificações de morte encefálica de todo o estado do Rio e organiza a cadeia de procedimentos até a doação efetiva de um órgão. Nas regiões dos Lagos, Norte e Noroeste Fluminense, a retirada de órgãos – após autorização das famílias – é feita por profissionais do PET Itaperuna ou do Rio de Janeiro.
Os interessados em doar órgãos podem formalizar o interesse através do site oficial do programa.
Para que órgãos e tecidos sejam doados após a morte é necessário conversar com a família e deixar bem claro o desejo.
O programa orienta que não é preciso deixar nada por escrito, mas os parentes devem se comprometer a autorizar o procedimento.


G1






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